CIGARRO É COISA DE CRIANÇA?
fevereiro 3, 2012 in A Agência, Clientes
A Organização Mundial de Saúde reuniu no final de 2011, em Nova York, representantes de todos os países-membros para discutir o que chamamos doenças crônicas não-transmissíveis (doenças cardiovasculares, câncer, doença pulmonar e diabetes são exemplos das mais importantes). Entre as diversas conclusões, reafirmou-se o tabagismo como sendo uma das principais causas de morte evitáveis em todo o mundo.
O consumo de cigarros é, sem dúvida, uma das mais devastadoras causas de doença pulmonar crônica. Seu uso está associado a uma destruição progressiva do funcionamento dos pulmões, levando a sintomas agudos de tosse, falta de ar, dor de cabeça, além de problemas a longo prazo, como infarto, enfisema, complicações na visão, na gengiva, com perda de dentes, e câncer do pulmão.
A combinação da fumaça resultante da queima do fumo e do papel do cigarro libera mais de 4 mil agentes químicos, 300 dos quais são venenos e 63 causam comprovadamente câncer. Para piorar, os não fumantes expostos a esta fumaça apresentam um risco aumentado entre 20 a 30% do desenvolvimento de câncer e os recém-nascidos podem até parar de respirar e morrer. A exposição ao tabaco mata 4,9 milhões de pessoas por ano em todo o planeta. Se nada for feito, este número deve aumentar para 10 milhões por ano até 2030.
O Brasil é um dos 15 países onde este problema será mais grave. O que fazer para evitar esta tragédia anunciada? A grande maioria dos recursos atualmente empregados na luta contra o fumo é voltada para tratamento de quem já está dependente. Drogas têm sido desenvolvidas para reduzir a dependência em nicotina, com resultados efetivos, mas centrados no tratamento e não na prevenção. É claro que o tratamento é muito relevante, mas se compara ao ato de enxugar gelo, ao não atacar a raiz do problema, ou seja, evitar que as pessoas comecem a fumar.
Como na maioria das doenças, prevenir é sempre muito mais barato e efetivo. No caso do fumo isto é ainda mais evidente, pois, como se sabe há muito tempo, o vício em cigarros se instala na infância e adolescência.
Memorandos internos da R.J. Reynolds Tobacco Co., divulgados entre as décadas de 70 e 80 já afirmavam que “a renovação do mercado (de fumantes) depende quase que exclusivamente de usuários com menos de 18 anos.” Suas pesquisas internas revelavam que somente 5% dos fumantes começam a fumar depois dos 24 anos. A indústria do tabaco foi ainda mais longe, recomendando explicitamente a propaganda direta para adolescentes a partir de 14 anos, que possuem o que eles chamavam de “valores mais liberais”, com o objetivo de criar o que intitularam uma “desejada reserva de mercado futuro de consumidores pelos 25 anos seguintes à sua adição”.
Não existem motivos para se pensar que esta estratégia tenha mudado. É necessário, portanto, que mais recursos sejam empregados para evitar que nossas crianças se tornem futuros adultos viciados em nicotina. Trabalhos científicos demonstram uma relação clara entre publicidade e iniciação no fumo. As crianças são um alvo fácil para a indústria do tabaco. São muito influenciadas pela propaganda direta e indireta e não se preocupam muito com possíveis riscos à sua saúde. Doença e morte são assuntos distantes que não os impressionam.
A International Pediatric Association, que reune 166 sociedades pediátricas em todo o mundo (incluindo a Sociedade Brasileira de Pediatria), lidera um programa mundial de combate ao fumo que busca advogar pela atenção preferencial de medidas preventivas. Proibição de propaganda, educação em saúde, palestras em escolas primárias e secundárias são algumas das principais iniciativas já desenvolvidas, através de uma rede de 600 mil pediatras filiados em todo o mundo. É preciso que a sociedade acorde para a importância deste tema. Estamos perdendo diariamente nossas crianças para um vício que as acompanhará por muito tempo, custará muito mais dinheiro e esforço para tratar e que pode ser evitado.
Prof. Sergio Augusto Cabral é pediatra, diretor de Saúde da Estácio Ensino Superior e presidente da International Pediatric Association (IPA)



























